Ao longo das últimas décadas, Sorriso deixou de ser uma cidade em expansão para se consolidar como uma das principais referências em desenvolvimento urbano do Mato Grosso. A transformação aconteceu em diferentes frentes, mas também foi desenhada pela arquitetura e pelos profissionais que ajudaram a construir essa identidade.
Entre eles está Maristela Fedrizzi, arquiteta que acompanhou esse crescimento desde os primeiros anos de sua carreira e que hoje é uma das referências da arquitetura na região. Em conversa com a Areka’a, Maristela compartilha sua visão sobre a evolução da cidade, o resgate da madeira e da materialidade natural, o comportamento das pessoas após a pandemia e o verdadeiro papel da arquitetura: criar espaços capazes de traduzir histórias e modos de viver.

A arquitetura acompanha o crescimento das pessoas e das cidades
Para Maristela, sua própria trajetória se desenvolveu junto com a evolução de Sorriso.
Quando chegou à cidade, recém-formada, os projetos atendiam a uma realidade muito diferente da atual. À medida que Sorriso cresceu economicamente e seus moradores passaram a buscar maior qualidade arquitetônica, foi necessário evoluir tecnicamente, aprofundar estudos e ampliar repertórios.
Essa transformação aconteceu de forma simultânea.
Enquanto a cidade amadurecia, a arquitetura também elevava seu padrão de qualidade, tornando-se mais sofisticada, personalizada e exigente.
“Eu acompanhei essa evolução e fiz parte dessa construção. Conforme a cidade foi crescendo e os clientes foram exigindo mais, eu também fui me especializando. Com certeza, me sinto responsável por muitas coisas que evoluíram na minha cidade.”
A madeira como expressão da autenticidade
Em um cenário onde autenticidade se tornou uma das maiores demandas da arquitetura contemporânea, Maristela acredita que poucos materiais conseguem transmitir tanta identidade quanto a madeira natural.
Segundo ela, existe uma diferença essencial entre reproduzir a natureza e incorporá-la ao projeto.
Cada peça criada a partir de madeira maciça preserva características irrepetíveis. Veios, tonalidades, texturas e marcas do tempo fazem com que nenhum móvel seja igual ao outro.
Mais do que um recurso estético, trata-se de preservar a história da matéria-prima.
Para a arquiteta, transformar troncos, árvores e elementos naturais em mobiliário representa uma forma de eternizar a natureza dentro das casas.
“Quando buscamos exclusividade, não há nada melhor do que usar a própria natureza a nosso favor. Aquela peça é única. A natureza nos dá esse presente, permitindo eternizá-la dentro da nossa casa.”
Essa visão dialoga diretamente com a essência da Areka’a, que transforma árvores naturalmente caídas em móveis autorais capazes de preservar sua identidade original.
Arquitetura começa pelas pessoas
Embora materiais, tecnologia e funcionalidade sejam fundamentais, Maristela acredita que nenhum deles ocupa o primeiro lugar no processo criativo.
Antes de qualquer decisão projetual, ela procura compreender quem irá viver aquele espaço.
Cada projeto nasce de uma pergunta simples: para quem esse ambiente será construído?
A resposta muda completamente o resultado.
Uma residência exige um olhar diferente de um hotel, um restaurante ou um espaço comercial. Em alguns casos, a prioridade será praticidade; em outros, criar ambientes que despertem pertencimento, acolhimento e memória.
“O foco sempre são as pessoas. Meu trabalho começa entendendo quem vai usar aquele espaço e como deseja viver nele.”
Essa abordagem transforma arquitetura em experiência — e não apenas em construção.
O reencontro do Mato Grosso com sua própria identidade
Maristela observa que houve um período em que a arquitetura regional buscou se aproximar dos grandes centros, priorizando novas tecnologias e materiais industrializados.
Nesse movimento, elementos que sempre fizeram parte da identidade mato-grossense, como a madeira e a pedra natural, acabaram perdendo espaço.
Hoje, esse caminho começa a se inverter.
Segundo ela, existe um movimento consistente de retomada das origens, no qual a natureza volta a ocupar posição de protagonismo nos projetos contemporâneos.
“Estamos nos apropriando novamente daquilo que sempre foi nosso. A madeira, a pedra e os materiais naturais voltam a fazer parte da arquitetura com muito mais consciência.”
Ao mesmo tempo, essa valorização não significa abrir mão da inovação.
Novas tecnologias construtivas continuam fazendo parte do futuro da arquitetura, convivendo com materiais naturais em projetos cada vez mais sustentáveis.
Depois da pandemia, a casa voltou a ser o centro da vida
Poucos acontecimentos transformaram tanto a arquitetura recente quanto a pandemia.
Para Maristela, esse período mudou profundamente a forma como as pessoas enxergam suas casas.
Ambientes que antes atendiam apenas necessidades práticas passaram a ser vistos como espaços de permanência, descanso, convivência e bem-estar.
A casa deixou de ser apenas o lugar onde se dorme para voltar a ser o principal refúgio das pessoas.
“Hoje as pessoas olham para a casa com muito mais carinho. Elas querem conforto, aconchego, espaço e qualidade de vida. Acho que isso veio para ficar.”
Essa mudança explica o crescimento de projetos que valorizam iluminação natural, integração com áreas verdes, materiais orgânicos e ambientes mais acolhedores.
Traduzir sonhos em espaços
Após tantos anos de profissão, Maristela afirma que sua maior inspiração continua sendo exatamente a mesma.
Transformar o sonho de cada família em um espaço real.
Mais do que desenhar plantas ou escolher materiais, ela acredita que o verdadeiro trabalho do arquiteto está em interpretar desejos, compreender estilos de vida e criar lugares onde as pessoas se reconheçam.
“É muito gratificante conseguir entender como uma família quer viver e transformar isso em arquitetura. Colocar esse sonho no papel e vê-lo se tornar um lar continua sendo o que mais me inspira.”
Essa visão resume uma arquitetura que vai além da estética.
Uma arquitetura construída com escuta, sensibilidade e respeito às pessoas — exatamente como acontece quando o design encontra sua essência na natureza e transforma matéria-prima em permanência.

